Em setembro de 2025, o projeto Mulher em Forma, hoje Instituto Seja Livre, realizou sua primeira corrida própria. Logo na estreia, foram 1.500 participantes. Seis meses depois, em março de 2026, uma nova edição já reunia 2.000 pessoas.
Na comparação entre os dois eventos, o público cresceu 80,8%.
Para quem olha apenas os números, pode parecer que a história começou na primeira linha de largada. Mas, para entender como um projeto estreante conseguiu ultrapassar mil participantes e, poucos meses depois, se aproximar dos 2 mil, é preciso voltar um pouco.
Antes de existir a corrida, já existia uma comunidade.
A comunidade veio antes do evento
O projeto Mulher em Forma surgiu em 2023 e foi idealizado pela Raly Ferreira. Segundo ela, a iniciativa nasceu a partir de sua própria trajetória, quando venceu uma depressão profunda através da mudança de hábitos, e passou a acolher mulheres que buscavam mudanças no estilo de vida, utilizando a corrida e a caminhada como partes importantes das atividades desenvolvidas pelo projeto.
Nesse primeiro momento, organizar eventos próprios ainda não fazia parte da operação.
O grupo participava de corridas realizadas por outros organizadores e parceiros. Aos poucos, no entanto, a presença começou a ganhar escala: 70 mulheres em uma prova, depois 100, em outros momentos 150.
Foi justamente essa mobilização que despertou uma nova possibilidade.
“Eu pensei: se o projeto é tão relevante, acho que nada mais justo do que termos a nossa própria história e a nossa própria corrida”, conta Raly.
Assim, em vez de criar um evento e depois procurar um público interessado, o Mulher em Forma percorreu o caminho inverso. Primeiro, construiu uma comunidade. Depois, passou a pensar em uma experiência própria para ela.
De participante a organizadora
A decisão trouxe também um desafio.
Raly conhecia o público, participava de provas e sabia qual experiência gostaria de oferecer. No entanto, nunca havia organizado uma corrida de grande porte.
A primeira edição foi planejada para setembro de 2025. A escolha da data também tinha relação com a identidade construída pelo projeto. O conceito “Seja Livre”, já utilizado pelo Mulher em Forma, encontrou no período da Independência uma conexão para a criação do evento.
O sucesso foi tão grande que o “Mulher em Forma” se transformou no “Instituto Seja Livre”. Mas transformar uma ideia em uma corrida exigia mais do que propósito.
Inscrições, vendas, fornecedores, pagamentos, produtos e toda a operação que acontece antes de os participantes chegarem à arena passaram a fazer parte da rotina.
Foi nesse momento que a Raly começou a buscar empresas que pudessem ajudá-la na estruturação da prova.
Quando o suporte também faz parte da tecnologia
Antes de tomar sua decisão, a Raly avaliou três empresas.
A Ticket Sports já fazia parte de sua rotina como atleta, já que diversas provas das quais o grupo participava utilizavam a plataforma. Porém, segundo ela, o fator decisivo não esteve apenas na tecnologia.
Foi o atendimento.
“Foi uma assessoria humanizada. Me trouxe segurança para realizar a minha primeira corrida, uma vez que eu nunca tinha realizado um evento de grande porte.”
Esse suporte acompanhou a transição que acontecia naquele momento.
“Eu era diretora de um projeto social e migrei de diretora de um projeto social para organizadora de corridas de grande porte.”
Ao longo das edições, algumas funcionalidades também passaram a fazer parte da operação.
Uma delas foi a possibilidade de disponibilizar produtos adicionais durante a inscrição. Como o Instituto Seja Livre possui itens próprios, como uniformes, a ferramenta permite oferecer produtos como camisetas, bonés e garrafas de forma opcional, sem necessariamente incorporá-los ao kit.
“eu coloco ali um boné, uma camisa, enfim, algum item fora do kit, e eu consigo fazer esse trabalho divulgando a minha marca dentro da plataforma da Ticket”
Outra solução destacada foi o cadastro de fornecedores e a possibilidade de organizar pagamentos pela plataforma. Segundo ela, o recurso ajudou principalmente nos processos financeiros, nos repasses e no fechamento dos eventos.
“Isso me ajudou de uma maneira absurda. Agiliza demais os meus processos internos aqui financeiros, bem como os repasses. O que ajuda na parte de fechamento da corrida. Deixo tudo cadastrado, registrado e programado dentro da plataforma e ela faz o resto.”
Mais do que funcionalidades isoladas, esses recursos passaram a responder a um novo momento do projeto: a necessidade de transformar uma comunidade mobilizada em uma operação de eventos mais estruturada.
Uma experiência construída a partir do próprio público
Ao mesmo tempo em que precisava profissionalizar os bastidores, o Instituto Seja Livre decidiu preservar uma característica essencial: construir seus eventos pensando nas mulheres que já faziam parte da comunidade.
Por isso, a proposta não está baseada exclusivamente em performance.
Segundo Raly, as arenas são pensadas para mulheres que estão buscando começar a correr, caminhar ou simplesmente viver uma experiência diferente dentro do esporte.
Essa escolha aparece até em elementos tradicionais das provas. Raly conta, por exemplo, que deixou de utilizar cronometragem nas corridas do projeto. “A nossa corrida não é só uma corrida. Ela tem um propósito de existir. A minha arena é montada para receber mulheres que estão ali buscando um novo estilo de vida, encontrar-se ou mesmo uma transformação.”
Ainda sobre o evento:
“Eu nem chamo de corrida. Eu chamo de evento, porque é uma festa, uma experiência que eu entrego muito diferente das corridas tradicionais.”
É uma decisão que revela um aprendizado importante para qualquer organizador: crescer não significa necessariamente reproduzir o formato dos maiores eventos.
Em alguns casos, conhecer profundamente o próprio público permite justamente fazer escolhas diferentes.
Mais de mil participantes desde a primeira edição
A construção dessa comunidade começou a aparecer também nos números.
A Corrida Mulher em Forma Edição Seja Livre, realizada em 7 de setembro de 2025, reuniu 1.500 participantes.
No ano seguinte, na 1ª Corrida Dia Internacional da Mulher, realizada em 8 de março, foram 2.000 participantes.
Na comparação com a primeira corrida, o crescimento chegou a 33% em aproximadamente seis meses. Somadas, as duas edições, registraram-se 3.500 participações.
Os números mostram uma evolução importante. Porém, também revelam algo que a própria trajetória do projeto ajuda a explicar: o crescimento de um evento nem sempre acontece em linha reta.
Depois de estrear acima de mil participantes e manter um público semelhante na segunda edição, foi a terceira grande prova analisada que levou o Instituto Seja Livre para um novo patamar.
Crescer também muda os bastidores
Quanto maior o evento, maior também a necessidade de antecipar decisões.
Quando perguntada sobre seu principal aprendizado, sua resposta foi para dentro da operação.
“O maior aprendizado é trabalhar com uma margem, tanto de tempo quanto de valores, um pouco melhor.”
A experiência das primeiras provas mostrou que alguns processos poderiam começar antes. Por isso, a organização passou a olhar com mais atenção para planejamento, orçamento e estrutura.
Para a Raly, essa é uma das principais diferenças entre simplesmente colocar um evento na rua e construir uma operação capaz de continuar crescendo.
“Ter essa estrutura desde o início faz toda a diferença.”
A lógica vale especialmente quando a ambição deixa de ser realizar uma única prova.
O próximo passo é transformar eventos em calendário
Hoje, o Instituto Seja Livre já olha além da próxima largada.
A visão apresentada por Raly é consolidar três grandes momentos ao longo do ano, ligados ao Dia Internacional da Mulher, ao período de setembro e ao mês de dezembro.
Depois, o objetivo é ampliar a presença do projeto pelo país.
“Eu quero que essas corridas sejam conhecidas nacionalmente. A ideia é levar esses três marcos para o Brasil inteiro.”
É uma ambição maior do que simplesmente aumentar o número de participantes de uma edição para outra. Significa transformar eventos em calendário, organizar processos que possam ser replicados e construir estrutura suficiente para crescer sem perder a identidade que criou a comunidade inicialmente.
Segundo a organizadora, a maturidade adquirida nas primeiras provas já mudou a maneira de olhar para os próximos eventos.
E talvez esteja justamente aí um dos maiores aprendizados dessa trajetória.
O projeto Insituto Seja Livre não começou com uma grande estrutura para então construir uma comunidade. A comunidade veio primeiro.
Mas, quando essa comunidade começou a crescer, foi necessário aprender a planejar antes, organizar processos, escolher parceiros e profissionalizar a operação.
Porque o propósito ajuda um evento a encontrar pessoas.
Estrutura ajuda a continuar entregando quando cada vez mais pessoas chegam.