A corrida de rua já vive a Era da Dispersão
Vocês também estão percebendo?
Temos mais corredores, mais provas, mais comunidades e mais experiências, tudo isso e mais um pouco, disputando recursos que vão continuar limitados: tempo, atenção, calendário e o mais importante, o bolso da gente.
Em 2022, Fernando Schüler publicou na Veja um artigo chamado “A Era da Dispersão”.
Ele não estava falando sobre corrida de rua. Falava sobre atenção.
A provocação era simples: a informação, antes escassa, tornou-se abundante. Em contrapartida, nossa atenção passou a ser cada vez mais disputada.
Schüler resume essa inversão de maneira simples:
“A informação se tornou abundante e a atenção, um recurso escasso.”
No ano seguinte, em 2023, assisti no RD Summit a uma palestra de Genesson Honorato chamada “A sua atenção foi hackeada”.
Genesson aprofundava justamente uma discussão sobre comportamento, tecnologia e economia da atenção: temos cada vez mais estímulos tentando ocupar um recurso que continua absolutamente limitado, nosso tempo.
Aquela provocação ficou comigo.
Agora, alguns anos depois, olhando para o mercado de corrida de rua, seus números, seu crescimento e principalmente a quantidade de novas escolhas que surgiram ao redor do corredor, começo a enxergar uma lógica parecida acontecendo diante de nós.
Talvez nunca tenhamos tido tanta gente querendo correr.
Mas talvez também nunca tenhamos tido tanta gente disputando a próxima escolha desse corredor.
Quando a represa vira mar
Estudos da Ticket Sports, estimam que o Brasil tenha hoje 14,6 milhões de corredores, contra aproximadamente 9 milhões em 2022.
Desse universo, cerca de 3,4 milhões participam de eventos esportivos. O país já teria mais de 14 mil eventos de participação, sendo a grande maioria corridas.
Em uma apresentação recente sobre a transformação desse mercado, Daniel Krutman, CEO da Ticket usou uma imagem que gosto especialmente:
“O que era represa, agora virou mar 🌊”
E talvez seja justamente quando a represa vira mar que começa a dispersão.
Porque o mar representa abundância, movimento e novas possibilidades.
Mas também exige leitura, direção e capacidade de navegar.
Mais corredores atraem mais provas. Mais provas atraem mais organizadores, marcas, plataformas, assessorias, crews, influenciadores, destinos e experiências.
O mercado cresce. E o crescimento se espalha.
Só que algumas coisas continuam exatamente do mesmo tamanho.
O domingo continua tendo 24 horas. O ano continua tendo 52 finais de semana.
E cada corredor continua tendo um orçamento, uma agenda e até um limite físico para decidir quantas experiências cabem em sua vida.
Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes entre o crescimento da corrida e o crescimento de cada evento de corrida.
Ser corredor não significa comprar muitas corridas
Existe um dado da própria Ticket que considero especialmente provocativo.
Em uma análise sobre recorrência, 55% da base participou de apenas um evento durante o ano. Outros 20,8% participaram de dois. A média ficou em 2,2 eventos por atleta.
Existe, portanto, uma diferença enorme entre ser corredor e ser consumidor recorrente de corridas.
Ao mesmo tempo, o universo construído ao redor da corrida continua aumentando.
No Strava, os novos clubes de corrida cresceram 3,5 vezes em 2025, enquanto os eventos promovidos por clubes avançaram 1,5 vez.
O corredor ganhou novas maneiras de viver o esporte.
Tem a prova. Mas tem também a crew. A assessoria. O treino de sábado. O café depois da corrida. A viagem. O tênis. O relógio. A academia. O conteúdo.
E tantas outras experiências construídas ao redor desse estilo de vida.
Isso me leva a uma pergunta diferente.
E se uma das maiores oportunidades do nosso mercado não estiver somente em encontrar novos corredores, mas em conquistar a segunda, a terceira e a quarta decisão de inscrição de quem já corre?
O mesmo bolso, com muito mais escolhas
Recentemente, uma conversa com alguém que acompanha de perto outro grande mercado de consumo me fez olhar para essa questão por outro ângulo.
O Grupo Boticário realiza eventos conosco na Ticket Sports desde 2017.
Seu atual CEO, Fernando Modé, vem falando publicamente sobre uma mudança de estágio depois de anos de forte expansão da companhia.
Segundo ele: “O que nós estamos vendo agora é um estágio de acomodação do que criamos nos últimos cinco anos.”
O Grupo praticamente triplicou de tamanho nesse período.
Modé também chama atenção para uma realidade: existem cada vez mais empresas e produtos disputando o mesmo bolso do consumidor.
Ele está falando do mercado de beleza.
Mas a lógica me parece bastante familiar.
Mercados não crescem indefinidamente da mesma maneira.
Existe um momento em que crescer significa simplesmente acompanhar uma categoria em forte expansão.
Depois, a base fica maior.
Novos competidores aparecem. O consumidor ganha novas opções. As comparações ficam mais difíceis.
E cada novo ponto percentual de crescimento passa a exigir muito mais inteligência.
Talvez o running brasileiro esteja justamente nessa etapa.
A Era da Dispersão no running
Não enxergo essa dispersão como sinal de crise.
Muito menos como indicação de que as pessoas estão deixando de correr.
Talvez seja justamente o contrário.
O mercado cresceu tanto que a escolha começou a se espalhar.
E abundância de oferta não significa abundância de consumo.
Significa abundância de escolha.
Essa mudança começa a separar cada vez mais dois tipos de eventos.
Existem provas que, a gente, o corredor sente que precisa fazer.
A gente coloca a data no calendário meses antes. Conversa com os amigos. Treina pensando naquele dia. Organiza a viagem. Reserva hotel. E reorganiza outras escolhas para estar lá.
E existem provas que a gente apenas pode fazer se…
A agenda permitir. Se os amigos forem. Se o preço fizer sentido. Se não surgir outra experiência mais interessante no mesmo período.
É nessa diferença que a marca deixa de ser apenas estética e passa a ser memória. Comunidade deixa de ser apenas grupo e passa a ser pertencimento.
Dados deixam de servir somente para explicar o passado e passam a ajudar a conquistar a próxima decisão.
Relacionamento deixa de começar quando as inscrições abrem e passa a acontecer durante o ano inteiro.
Talvez o próximo ciclo da corrida não seja apenas sobre encontrar novos corredores. Acredito que será cada vez mais sobre conquistar uma parcela maior do tempo, da atenção, do calendário e das escolhas de quem corre.
Porque a concorrência deixou de acontecer somente entre provas. Ela acontece entre escolhas.
E talvez seja essa uma das perguntas mais importantes para nós, que organizamos eventos hoje:
Diante de tantas possibilidades, por que o corredor escolherá viver a minha experiência?
A corrida de rua não parece estar ficando menor. Muito pelo contrário. Ela ficou tão grande que talvez agora seja necessário aprender a guiar melhor o leme. E, para quem organiza eventos, entender as correntes pode ser mais importante do que simplesmente remar mais forte.
Referências
- Fernando Schüler — “A Era da Dispersão”, Veja
- Daniel Krutman — “Brasil, um país de 14,6 milhões de corredores”, InfoMoney
- Fernando Modé, CEO do Grupo Boticário — entrevista ao InfoMoney
- Genesson Honorato — reflexão sobre atenção, MIT Technology Review Brasil