Seus eventos existem sem você?
O Organizador parece incansável. Eterno. Profundamente identificado com os próprios eventos, com a própria empresa. São parte um do outro.
Esse perfil é comum no setor — e que se faça justiça: é mesmo tudo incrível. O que fazemos para viver é apaixonante.
Mas não, os eventos não são parte de nós. São feitos para o mundo.
Afinal, o que estou tentando dizer?
Que nosso segmento pensa pouco em continuidade. É apegado. Não prepara os próximos passos das empresas.
- Não queremos saber de sócios — e acumulamos experiências ruins com eles;
- Não existe plano de carreira, sucessão ou continuidade. Confiar parece sempre uma armadilha;
- Achamos que é uma virtude o evento ser “nosso”. Economizamos em estrutura;
Mas, se você cansar ou simplesmente quiser fazer outra coisa amanhã… sua empresa e seus eventos continuam?
Eu, Eu Mesmo e Ninguém
Construir algo é também pensar nos próximos passos.
Já vi muitas vezes eventos acabarem simplesmente pela vontade de seus organizadores. Projetos vivos — e até lucrativos — ficando pelo caminho.
Lembrar da extinta Corpore, que, pelo seu potencial de vanguarda, deveria existir até hoje.
Essa geração de organizadores ainda tem muita lenha para queimar (não estou querendo aposentar ninguém, fique claro). Mas é preciso transformar a dinâmica de relações e propriedades sobre o que criamos. Morrer abraçado ao próprio evento pode parecer bonito — mas muitas vezes é só um mau negócio.
Fusões e Aquisições também são caminho
Em outros países, o mercado de M&A de eventos é mais maduro. Aqui, ainda engatinhamos.
Tive o prazer de conhecer Tracy Sundlun, fundador da Rock’n’Roll Running Series, que me contou, com orgulho, que seu legado seguiu em frente – vendeu seu circuito de corridas para um grupo maior, mesmo do Ironman, pegou o boné e foi criar alguma coisa nova. O grupo do Ironman, por exemplo, também é dono também do UTMB.
No Brasil, o cenário ainda é desafiador:
- Valuations sem padronização;
- Paixão tão forte que há quem prefira ver o evento acabar a vê-lo em outras mãos;
- Falta de investidores com apetite por consolidação;
E, acima de tudo: ninguém está preparado para vender. Não se sabe quem procurar, como montar um bom pitch. E o valor pedido, muitas vezes, é um otimismo descolado da realidade.
Nos EUA um evento esportivo vale entre 1,7X e 4,5X seu ebitda, mas é assunto para outro texto.
Criar para durar
No ano em que veremos a São Silvestre de número 100 (!), precisamos mergulhar em conversas sobre longevidade. E isso não significa trabalhar para sempre na mesma coisa.
É preciso:
- Abrir espaço para profissionais que pensam diferente;
- Abrir mão da ideia de que só você sabe fazer o que você faz;
- Treinar sucessores. Escolher pessoas com potencial para assumir o que você construiu;
Ou então, aceitar os movimentos naturais do mercado. Essa é talvez a geração mais importante de eventos esportivos da história humana, então, precisamos ser lembrados como precursores, assim como Sr. Cásper Líbero.
Um evento nasce. Com seu esforço, ele cresce. Ganha marca, marcos. Você o cultiva por anos. Mas, em algum momento, cansa.
E aí: você é refém do que criou?
Ou pode ser o criador de algo que vai além de você?
