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Ficou mais fácil vender inscrições. Construir confiança continua difícil.

Caio Carvalho Por Caio Carvalho
10 min de leitura

Em 28 de outubro de 2025, publicamos uma matéria aqui no HUB explicando por que acompanhávamos, desde 2019, o mercado brasileiro de esportes endurance.

Naquela época, a principal conclusão era que, para compreender um mercado, era preciso acompanhá-lo de perto. Um ano depois, após novas rodadas de pesquisa, mais dados e também alguns erros de interpretação ao longo do caminho, acrescentaria uma segunda parte a essa ideia: não basta enxergar mais. Precisamos aprender a interpretar melhor aquilo que estamos enxergando.

Os dados de 2026 deixaram isso muito claro.

De 68 para 81. Depois, para perto de 150.

No segundo trimestre de 2026, nosso mapeamento acompanhava 81 fontes, contra 68 na rodada anterior. Naquela fotografia, eram 61 plataformas de inscrições, 13 empresas de cronometragem que também comercializavam inscrições e sete organizações com operação própria.

A evolução entre essas duas primeiras rodadas foi de aproximadamente 19%.

Na etapa seguinte, porém, a velocidade da descoberta mudou de patamar. O relatório formal do terceiro trimestre já registrava 131 pontos de observação, incluindo plataformas, timers, organizações e calendários especializados. Com a consolidação e ampliação do radar ao longo do ano, nossa ordem de grandeza passou a se aproximar de 150 plataformas, soluções e outras fontes relacionadas ao ecossistema. O relatório do Q3 já mostrava claramente essa aceleração da cobertura.

Tomando os 81 pontos observados no Q2 como referência, chegar próximo de 150 representa uma ampliação de aproximadamente 85% no universo acompanhado em apenas uma etapa do trabalho.

É um salto grande demais para ser ignorado.

Mas também seria precipitado concluir que quase 70 empresas surgiram do nada em poucos meses.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes deste último ano: encontrar mais não significa automaticamente que o mercado tenha crescido na mesma proporção.

Parte dessas empresas já existia. Algumas eram operações regionais que ainda não acompanhávamos; outras vendiam inscrições por meio de estruturas que não faziam parte das nossas fontes anteriores; e a própria evolução do método nos permitiu chegar a ambientes que antes estavam fora do radar.

Por isso, continuamos tratando esse trabalho como uma fotografia periódica, e não como um censo definitivo do mercado brasileiro. A metodologia dos levantamentos já fazia essa ressalva: aquilo que encontramos representa a situação observada naquele momento, e não necessariamente a totalidade dos eventos ou das empresas existentes.

Ainda assim, quando a fotografia muda tão rapidamente, precisamos tentar compreender o que está acontecendo diante dela.

Estamos falando de um mercado de mais de R$ 1 bilhão

Antes de discutir quantas empresas estão entrando nesse mercado, vale dimensionar o tamanho do espaço que todas elas estão disputando.

No nosso estudo de 2026, estimamos aproximadamente R$ 368 milhões de GMV no primeiro trimestre, R$ 273 milhões no segundo e R$ 282 milhões no terceiro, chegando a uma projeção anual próxima de R$ 1,15 bilhão dentro do universo que hoje conseguimos mapear.

Não consideramos esse número um censo oficial do esporte participativo brasileiro. Parte dos valores utilizados é estimada, algumas operações ainda permanecem fora do nosso radar e determinadas modalidades possuem uma cobertura que continua evoluindo. Por isso, preferimos olhar para os R$ 1,15 bilhão como uma ordem de grandeza, e não como um número definitivo de mercado.

Ainda assim, é uma ordem de grandeza relevante, principalmente porque estamos falando apenas de uma camada dessa economia: a venda de inscrições.

Quando ampliamos a lente para o setor de eventos como um todo, percebemos o tamanho do ecossistema no qual essa movimentação está inserida. O III Dimensionamento do Setor de Eventos no Brasil estimou faturamento de R$ 813,5 bilhões em 2024, considerando toda a cadeia. Em outro recorte metodológico, a ABRAPE calculou R$ 131,8 bilhões em consumo relacionado ao setor no mesmo ano, enquanto o Barômetro UBRAFE/SPTuris estimou R$ 12 bilhões de impacto econômico somente dos grandes eventos B2B realizados na cidade de São Paulo.

Esses números não medem a mesma coisa e, portanto, não devem ser comparados diretamente. Eles servem para mostrar outra coisa: a inscrição é apenas o início da movimentação econômica provocada por um evento.

Quando um atleta decide participar de uma prova, a compra pode desencadear gastos com viagem, hospedagem, alimentação, transporte, equipamentos esportivos, fotografia e diversos outros serviços. Para o organizador, a inscrição representa receita e relacionamento com o participante; para a cidade e para todo o ecossistema ao redor da prova, ela pode ser o primeiro passo de uma cadeia econômica muito maior.

Por isso, mais do que afirmar que encontramos um mercado de R$ 1,15 bilhão, o que considero mais interessante é perceber que já conseguimos enxergar mais de R$ 1 bilhão circulando somente na porta de entrada do esporte participativo.

E existe uma consequência natural nisso: quanto mais relevante economicamente um mercado se torna, mais empresas tendem a enxergar oportunidades para participar dele.

Talvez isso também ajude a explicar parte da pulverização que estamos começando a observar.

Quantidade de eventos não significa quantidade de valor

Esse foi outro aprendizado importante de 2026.

Quando observamos o terceiro trimestre pelo volume de eventos, as categorias que reuniam outras plataformas e novos entrantes representavam mais da metade da fotografia. Quando mudávamos a lente para GMV, a distribuição já era diferente.

Isso nos obrigou a abandonar uma pergunta que parecia suficiente alguns anos atrás: quem tem mais eventos?

Hoje precisamos acrescentar outras. De quais modalidades estamos falando? Em quais regiões? Qual é a escala dessas provas? Quanto movimentam? Existe recorrência? Estamos olhando para centenas de pequenos organizadores ou para algumas grandes operações?

Uma empresa com centenas de eventos pequenos pode movimentar menos recursos do que outra com poucas dezenas de grandes projetos. As duas podem ser importantes, mas representam negócios completamente diferentes.

Também não existe apenas um mercado brasileiro

A dimensão regional reforçou essa percepção.

Na nossa base de 2026 encontramos players em que mais de 70% dos eventos observados estavam concentrados em São Paulo, enquanto outras operações apresentavam presença muito mais forte no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará ou em determinados mercados regionais.

Uma média nacional, portanto, pode esconder muita coisa.

Existe o mercado das grandes capitais, mas também existe o dos cronometristas regionais, das plataformas que construíram força dentro de uma única cidade, um único estado, dos organizadores que criaram seus próprios canais e das soluções especializadas em determinadas modalidades.

Corrida de rua, trail, MTB, ciclismo, triathlon e natação podem compartilhar atletas, mas nem sempre compartilham os mesmos fornecedores, territórios ou modelos de negócio.

Nosso próprio estudo do terceiro trimestre chegou a uma conclusão semelhante: escala, presença regional, modalidade e valor médio dos eventos contam histórias bastante diferentes.

E talvez seja justamente aqui que apareça o fenômeno que mais nos interessa acompanhar daqui para frente.

Ficou mais fácil entrar

Passar de algumas dezenas de fontes conhecidas para um universo que hoje ultrapassa centenas soluções e operações observadas provoca uma pergunta inevitável: por que passaram a existir tantas? tem tanto espaço assim?

Parte da resposta, como explicamos, está na nossa própria capacidade de encontrá-las. Mas acredito que exista um segundo movimento acontecendo.

Talvez nunca tenha sido tão fácil transformar uma ideia em um produto digital capaz de monetizar no curto prazo.

Infraestrutura em nuvem, meios de pagamento integráveis, serviços financeiros digitais, plataformas de desenvolvimento e, mais recentemente, inteligência artificial diminuíram significativamente a complexidade e o investimento necessários para colocar uma solução funcionando.

E considero isso saudável.

Barreiras menores criam competição, estimulam inovação, permitem o surgimento de soluções regionais e dão espaço para pessoas que entendem profundamente um determinado nicho construírem algo novo.

Provavelmente algumas das melhores ideias dos próximos anos nascerão justamente de quem está começando agora.

O ponto de atenção está em outra diferença: conseguir vender uma inscrição não significa necessariamente estar preparado para sustentar uma operação de inscrições.

E é aí que a escolha do organizador muda

Enquanto uma operação esta em início de desenvolvimento, algumas diferenças entre fornecedores talvez quase não apareçam.

Elas ficam mais visíveis quando milhares de atletas tentam comprar simultaneamente, quando valores relevantes começam a circular ou, principalmente, quando alguma coisa não acontece exatamente como planejado.

Nesse momento, a discussão deixa de ser apenas sobre uma página bonita, determinada funcionalidade ou alguns pontos percentuais de diferença no preço. Passam a importar estabilidade em momentos de pico, proteção dos dados, segurança dos pagamentos, regras de repasse, capacidade financeira, atendimento ao atleta, contingência, suporte e histórico operacional.

E existe um ponto que consideramos especialmente importante para quem organiza uma prova: para o atleta, a tecnologia escolhida pelo organizador faz parte da experiência do próprio evento.

Quando uma inscrição não funciona, um pagamento apresenta problema ou o atendimento não consegue responder, dificilmente o participante separa completamente aquele fornecedor da marca da prova que escolheu participar.

Por isso, quanto mais alternativas surgem, menos acredito que simplesmente “conseguir vender inscrições” deva ser suficiente como critério de escolha. Quando milhares de inscrições estiverem sendo processadas, recursos estiverem em circulação e parte da experiência dos atletas depender daquela operação, quais critérios realmente deveriam definir essa decisão?

O paradoxo dessa nova fase

Talvez exista aqui o principal paradoxo desta fotografia de 2026.

Há alguns anos, possuir a tecnologia necessária para comercializar inscrições já poderia representar uma vantagem competitiva importante.

Hoje, essa tecnologia está ficando cada vez mais acessível.

Se essa tendência continuar, veremos ainda mais empresas, produtos regionais, especializações e soluções diferentes entrando nesse oceano. E isso provavelmente será bom para o mercado.

Mas, justamente por isso, quanto menor ficar a barreira tecnológica para entrar, maior poderá se tornar o valor da confiança para permanecer.

Quando construir uma boa interface deixa de ser algo raro, a diferenciação começa a migrar daquilo que conseguimos ver na tela para aquilo que precisa funcionar atrás dela.

Reputação, segurança, capacidade financeira, atendimento, conhecimento do esporte, escala, processos e histórico levam anos para serem construídos e dificilmente podem ser copiados na mesma velocidade de uma lista de funcionalidades.

Não significa que empresas grandes serão necessariamente melhores do que empresas pequenas. Tampouco que os novos integrantes deste pequeno bolo devam ser vistos com desconfiança simplesmente por serem novos. Muitas das transformações importantes de um setor começam justamente quando alguém novo questiona aquilo que os mais antigos passaram a considerar normal.

O aprendizado é outro.

Mais oferta exige mais critério.

Se nos aproximamos de mais de 100 soluções e fontes observadas em um mercado que já aponta para mais de R$ 1 bilhão em inscrições, a pergunta do organizador talvez precise evoluir junto com o próprio setor.

Não apenas: “quanto custa vender minha inscrição?”

Mas também: “quem está preparado para cuidar dela quando minha prova crescer?”

Na canoagem polinésia, completar o número de remadores aumenta a força disponível, mas força nunca foi suficiente para garantir uma boa travessia. É preciso conhecer a embarcação, confiar em quem está ao lado e saber que, quando o vento virar ou o mar mudar, haverá estrutura para continuar remando.

Talvez o mercado de inscrições esportivas participativa esteja chegando justamente a esse ponto. Mais empresas, mais tecnologia e mais possibilidades são boas notícias.

Para quem organiza eventos, porém, mais possibilidades também tornam a escolha mais importante.


Esta conversa começou um ano atrás

Em 2025, a primeira reflexão sobre esse trabalho, ainda muito mais focada em explicar por que fazemos o mapeamento e o que os dados daquele momento começavam a nos ensinar.

Um ano depois, esta matéria é também uma continuação daquela conversa.

Leia a matéria de 2025: Mapeamento do mercado esportivo: por que fazemos?

Caio Carvalho

Caio Carvalho

Diretor de novos negócios no Ticket Sports, atleta amador multiesportes e ainda profissional influente no mercado esportivo, surfando com desenvoltura nas ondas de vendas e marketing digital. Possui uma trajetória consolidada na concepção de abordagens estratégicas junto aos principais protagonistas do esporte participativo no Brasil.

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