Você sabe em que pace sua equipe está?
A linha de chegada é comum. O apoio para cada pessoa não precisa ser.
Quem organiza uma corrida de rua aprende a ler ritmos.
Existe o momento de acelerar as inscrições, intensificar a comunicação, cobrar uma entrega ou concentrar toda a energia na operação.
Em alguns trechos, é preciso ganhar velocidade. Em outros, controlar o pace, observar o percurso e preservar força para o que ainda está por vir.
Bons organizadores desenvolvem essa sensibilidade quase naturalmente.
Mas existe um ritmo que nem sempre aparece nos dashboards, cronogramas ou reuniões de produção:
O pace das pessoas que constroem o evento.
Uma equipe não corre em um único ritmo
Uma equipe pode seguir na mesma direção reunindo profissionais em momentos diferentes.
Uma pessoa que acaba de assumir uma função talvez precise de mais contexto e acompanhamento.
Um coordenador de algum processo experiente pode entregar melhor quando recebe objetivos claros e autonomia para construir o caminho.
Alguns profissionais avançam com orientações mais diretas. Outros desenvolvem seu potencial quando encontram espaço para propor, experimentar e decidir.
Isso não significa permitir que cada pessoa trabalhe no ritmo que desejar.
O evento possui prazos, responsabilidades e uma linha de chegada comum.
A reflexão está em compreender qual apoio permite que cada profissional cumpra sua responsabilidade no pace que o projeto exige.
Do marketing para a liderança
A personalização não é uma novidade no marketing.
Há muitos anos, empresas utilizam informações como perfil, localização e histórico de consumo para criar comunicações mais próximas de diferentes públicos.
O movimento mais recente é a hiperpersonalização.
Com o avanço da inteligência artificial, da análise de comportamento e do uso de dados em tempo real, tornou-se possível ir além das grandes segmentações e adaptar experiências ao contexto de cada pessoa. A Salesforce diferencia a hiperpersonalização justamente pelo uso de dados em tempo real, comportamentos, preferências, inteligência artificial e aprendizado de máquina.
Essa evolução também acompanha uma expectativa crescente do público. Uma pesquisa da McKinsey mostrou que 71% dos consumidores esperam interações personalizadas das empresas e 76% se frustram quando isso não acontece.
Tenho levado para minhas conversas com gestores e líderes uma provocação que nasceu dessa observação:
Se buscamos compreender cada vez melhor o comportamento dos nossos públicos, por que ainda insistimos, algumas vezes, em liderar pessoas diferentes exatamente da mesma forma?
Costumo chamar esse movimento de hiperpersonalização da liderança.
Não como uma teoria acadêmica estabelecida, mas como uma forma de transportar esse olhar do marketing para o cotidiano das equipes.
Nesse caso, os dados não estão apenas nos sistemas.
Eles aparecem nas conversas, no histórico de entregas, no nível de experiência, na segurança para decidir, na necessidade de acompanhamento e no momento profissional de cada pessoa.
A linha de chegada continua sendo a mesma.
Os princípios, as responsabilidades e os resultados esperados também.
O que pode mudar é a forma como o líder oferece direção, autonomia e apoio durante o percurso.
Entre o pace e o leme
Gosto de pensar que liderar também se parece com conduzir uma canoa.
O leme não rema no lugar de todos. Sua função é ajudar a ler o mar, preservar a direção e realizar os ajustes necessários quando o vento, a corrente ou o percurso mudam.
Na canoa, também não basta cada pessoa remar com força.
É preciso encontrar uma cadência, compreender o sentido e perceber como cada movimento interfere no avanço coletivo.
O Center for Creative Leadership resume a liderança em três resultados: direção, alinhamento e compromisso. Liderar, nessa perspectiva, não é apenas uma ação individual, mas um processo que permite às pessoas trabalharem juntas em direção a um resultado comum.
No evento, o organizador continua sendo uma referência importante. Mas não precisa correr a cada quilômetro.
Em alguns momentos, sua presença mais próxima oferece segurança. Em outros, o melhor apoio pode ser abrir espaço para que profissionais preparados utilizem sua própria experiência.
Liderar não é escolher definitivamente entre acompanhar ou delegar. É perceber qual presença cada pessoa e cada momento pedem.
Pequenos postos de hidratação
Hiperpersonalizar a liderança não exige transformar a agenda em uma sequência interminável de reuniões.
Pode começar com uma pergunta simples:
- O que esta pessoa precisa de mim agora para conseguir avançar?
- Mais direção ou mais autonomia?
- Mais contexto ou uma decisão objetiva?
- Mais acompanhamento ou mais confiança?
Essas conversas funcionam como pequenos postos de hidratação.
Não interrompem o percurso. Ajudam a sustentá-lo.
A liderança adaptativa, abordagem desenvolvida por Ronald Heifetz e colaboradores, também reconhece que desafios complexos não são resolvidos apenas com respostas técnicas. Eles exigem leitura do contexto, aprendizado e mudanças na forma como líderes e equipes atuam.
Recalibrar a liderança, portanto, não significa concluir que o modelo anterior estava errado.
Significa reconhecer que as pessoas, a equipe ou o percurso mudaram.
Preparar a próxima largada
O sucesso de uma corrida não está apenas no tempo marcado no relógio.
Também está na forma como o atleta administrou o percurso e chegou preparado para os desafios seguintes.
Com um evento acontece algo parecido.
Além da experiência entregue aos participantes, vale observar se a equipe terminou mais integrada, segura e preparada para a próxima edição.
Por isso, a pergunta não é se o organizador lidera bem ou mal.
A pergunta é:
- Você sabe em que pace sua equipe está?
- Quem precisa de sua presença mais próxima?
- Quem está preparado para receber mais espaço?
- Sua equipe conhece apenas suas tarefas ou também compreende a direção da canoa?
Um bom organizador não precisa obrigar todas as pessoas a correrem no mesmo pace ou remarem exatamente da mesma maneira.
Ele deixa clara a chegada, mantém o leme apontado para a direção certa e desenvolve sensibilidade para oferecer o apoio que cada pessoa precisa em cada trecho.
Porque o melhor ritmo nem sempre é o mais rápido.
É aquele que permite ao evento avançar, às pessoas crescerem e à equipe chegar ainda mais preparada à próxima largada.
Referências
- Mundo do Marketing. Hiperpersonalização: a nova fronteira da empatia.
- McKinsey & Company. Marketing: 71% dos consumidores esperam interações personalizadas